Divergência sobre horário de detonação no Córrego do Feijão, no dia do rompimento da Barragem B1, marcam depoimentos na CPI da Assembleia

Apesar da recomendação dada pela empresa Tüv Süd, contratada pela Vale para avaliar e atestar a estabilidade de barragens, para que fossem evitadas detonações na Mina do Feijão, a prática foi mantida até o dia 25 de janeiro, data em ocorreu o rompimento da barragem que vitimou centenas de pessoas em Brumadinho. Esta informação foi confirmada nesta segunda-feira (24/06), pelas duas testemunhas ouvidas pela Comissão Parlamentar de Inquérito criada para investigar as causas da tragédia, Eiichi Pampulini Osawa, mecânico de mineração da empresa Sotreq, e Edmar de Rezende, funcionário da própria Vale, responsável pela aplicação de explosivos, cargo conhecido como “blaster”. Denis Valentim, funcionário da empresa Tüv Süd, também seria ouvido, mas não compareceu, com base em uma decisão liminar do Superior Tribunal de Justiça, que lhe concedeu um habeas corpus.

Os depoimentos de Eiichi Osawa e Edmar de Rezende tiveram como foco uma detonação que estaria programada para acontecer às 11 horas, na cava da Mina do Córrego do Feijão, no mesmo dia em que ocorreu a tragédia. Rezende seria o responsável e Osawa participaria da operação. Os dois afirmaram ter havido a detonação, mas divergiram sobre o horário. Segundo especialistas já ouvidos pela CPI, detonações poderiam gerar o ‘gatilho’ de liquefação da Barragem B1 e também da ruptura.

Os registros mostram que a barragem se rompeu às 12h28. Confirmando o que havia dito à Polícia Civil, Eiichi Osawa repetiu aos deputados que a detonação aconteceu entre as 12h20 e 12h40, aproximadamente a um quilômetro da barragem B1. Ele não soube precisar se a explosão ocorreu antes, simultaneamente ou depois do rompimento, mas disse que estava de frente para o local da detonação e a viu pessoalmente.

Já, Edmar Rezende afirma que foi exatamente às 13h33, ou seja, pouco mais de uma hora após o rompimento. Questionado sobre qual dos dois estaria mentindo, ele garantiu ter vídeos e registros que comprovam o horário da operação. Na sequência, o referido vídeo foi exibido para a comissão. Os depoentes também divergiram sobre a distância entre o local da explosão e a barragem B1, que se rompeu. Enquanto Eiichi havia estimado em um quilômetro, Edmar falou em torno de quatro quilômetros, em linha reta. A assessoria da CPI confirmou ser de 1,4 quilômetro.

Segundo Edmar, mesmo já tendo conhecimento do ocorrido, como funcionário responsável pela aplicação dos explosivos, decidiu por conta própria dar prosseguimento à detonação após fazer contato com um de seus superiores, o técnico Glayson Pereira, que conseguira escapar da lama, e ser informado que Alano Teixeira, que era seu gerente, e Alaércio Lucio Ferreira, seu supervisor, não conseguiram se salvar. Ele afirma que a decisão foi tomada por medida de segurança, uma vez que não há como retirar os explosivos da cava e por temer consequências ainda mais graves, caso algum fator provocasse a detonação não programada.

Esta atitude foi amplamente questionada pelos membros da CPI, tanto em relação aos riscos que os abalos poderiam representar naquele momento, quanto sobre a “frieza” do funcionário, que permaneceu no mesmo local, por 1h03, mesmo sabendo que centenas de pessoas haviam sido soterradas, dentre elas, amigos e parentes dele. O deputado Sargento Rodrigues, vice-presidente da comissão, afirmou não conseguir entender como alguém, com real noção da dimensão da tragédia, conseguiu agir desta forma. “Surpreende pensar que, mesmo tendo ouvido os gritos de uma colega pelo rádio comunicador, anunciando o rompimento e pedindo socorro, sabendo da morte de colegas e do risco ainda eminente, inclusive para ele próprio, alguém consiga ficar parado, por uma hora, a poucos quilômetros de distância do foco”.

Questionado sobre ter sido orientado por técnicos da Vale, Edmar afirmou que, nesta uma hora e poucos minutos, ninguém o procurou para saber sobre a detonação, se já havia ou não ocorrido, ou mesmo para determinar procedimentos.

Também faltaram orientações antes da tragédia, pelo que confirmaram os depoentes. Nenhum deles foi alertado sobre qualquer recomendação ou advertência da empresa Tüv Süd de que não deveria ocorrer detonação ou movimentação de máquinas pesadas na área próxima à barragem B1, que se rompeu. Ambos relataram que as detonações na Mina de Jangada e em Córrego do Feijão continuavam ocorrendo normalmente, até o dia do rompimento da B1.

Após os depoimentos, os integrantes da CPI elaboraram requerimento para que seja enviado ofício à Vale solicitando a lista de detonações realizadas nas minas Córrego do Feijão e Jangada, nos meses de dezembro de 2018 e janeiro de 2019, com o registro das cargas explosivas utilizadas. Outro requerimento é relativo ao fornecimento de vídeos de detonações ocorridas em 25 de janeiro.

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